sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Para cada realidade, uma escolha. Para cada escolha, respeito.


As pessoas discutem muito sobre o aborto, mas o ponto principal sempre fica fora do debate: por que as mulheres abortam. Há sim inúmeros métodos contraceptivos e, aparentemente, eles estão disponíveis para todas as pessoas. Mas é só aparentemente. Talvez eu e você que me lê tenhamos o mínimo necessário para prevenir uma gravidez. Tivemos diálogo com nossos pais, sabemos como nosso corpo funciona, temos acesso à profissionais da saúde que nos orientam bem e, ao menos no meu caso, nunca sofri violência física ou sexual de quem quer que seja, muito menos dentro da minha família. Mas... essa não é a regra.

Nossa sociedade é extremamente machista e o que não faltam são vítimas sendo desmoralizadas sempre que denunciam um estupro. Houve até um caso recente em que uma menor de idade conquistou na justiça o direito de abortar após ter sido abusada pelo padrasto. O promotor responsável pelo caso disse, entre outras coisas, que ela era uma vagabunda e que gostaria que ela tivesse 18 anos para que ela cumprisse pena com detentas mais velhas e então fosse submetida a todo tipo de violência. Isso veio de um Promotor de Justiça. Isso foi veiculado pela imprensa. E isso não teve, nem de longe, o impacto que deveria.

Uma mulher que aborta, está acuada. Ela tem um filho que não quer. Muitas vezes esse filho é fruto de uma violência que ela sequer pode denunciar. No caso da adolescente violentada pelo padrasto, por exemplo, houve pressão da mãe para que a vítima inocentasse o agressor. A própria mãe era conivente com a violência e condenou a atitude da filha em buscar ajuda. O medo cala, principalmente quando há mais dedos apontados do que mãos estendidas.

Falar dessa realidade é difícil, porque não é algo que eu vivencio. Mas só porque não sinto na pele, não quer dizer que não exista. Caso a mulher estuprada seja obrigada a ter a criança, os laços maternais serão prejudicados desde o ventre, o que aumenta muito as chances de abandono logo após o nascimento. Sempre nos horrorizamos quando vemos bebês abandonados em lotes vagos, como se não tivessem valor. Realmente, é de se horrorizar. Mas nunca pensamos no tipo de sentimento avassalador capaz de levar uma mãe a desprezar um filho.

A mãe que descarta a sua criança, antes ou após o parto, é uma mulher despedaçada, desesperada e descrente. Não mede as consequências de seus atos e vê o filho como um intruso. Um mal que precisa ser eliminado com urgência. Essa mulher cheia de cicatrizes tropeçou na maternidade e se sente completamente perdida. Seria prudente condená-la a prisão logo depois dela ter tomado a decisão mais difícil de sua vida? Será que somos assim tão perfeitos? As estatísticas dizem que não. Segundo pesquisa recente, uma em cada sete mulheres assume que já praticou aborto. E há ainda outras tantas que, por vergonha ou medo, jamais assumirão isso publicamente. O aborto acontece, a gente gostando ou não, aprovando ou não.

Ser contra o aborto é muito simples para mim, que tenho um relacionamento estável e sonho em ter uma família. Um filho, ainda que não planejado, seria muito bem acolhido. Mas minha realidade é exceção e, ainda que por razões religiosas e éticas eu não praticasse um aborto, como cidadã, não posso exigir das demais pessoas o mesmo comportamento.

A Lei deve ser, antes de tudo, universal. Se eu fizer da Lei um instrumento à serviço da minha fé, estarei promovendo qualquer coisa, menos Justiça.

Mulheres morrem o tempo todo em clinicas de aborto clandestinas. Portanto, essa não é uma questão que deva ser analisada sob o ponto de vista religioso, mas sim humanitário. Trata-se de saúde pública, ainda que muitos discordem.

Além disso, nenhuma mulher é obrigada a interromper uma gestação. Ela apenas tem em mãos uma opção que só pode ser utilizada em casos específicos. Até porque, um aborto não é "pílula do dia seguinte" ou qualquer outro método contraceptivo que você compra em farmácias. Um aborto é um trauma para o corpo, para a mente e para o espírito. Por isso, a última coisa que a sociedade deve fazer é julgar.

Como advogada, o que mais vejo são mães aflitas em processos intermináveis tentando receber alimentos de pais desaparecidos. Porque pai é imaculado. Não importa se ignora a existência do filho, ele se torna automaticamente um bom pai se der um par de chinelos para a criança. Já a mãe, pobre coitada, tem que fazer jornada dupla, tripla, cuidar da casa e manter as crianças impecáveis. E ai dela se achar que pode se relacionar novamente. Em pouco tempo fica mal falada, ganha fama de mulher fácil e quase nunca consegue compromissos sólidos, porque tem filhos de outro homem e isso é imperdoável.

Uma mulher que aborta fica para sempre marcada. Uma mãe solteira também. Há cerca de 20 milhões de mães solteiras atualmente no Brasil e elas são rigorosamente cobradas e condenadas todos os dias por uma sociedade machista e hipócrita. Os pais dessas crianças estão bem, obrigado. Continuam imunes às críticas e bem longe dos oficiais de justiça. Tudo certo, como deve ser. E olha que estamos em 2016!

Enfim, o tema é complexo e cada um tem uma opinião formada a respeito. Eu não abortaria, mas se há mulheres que precisam recorrer a essa medida, quero ao menos que elas tenham segurança. No momento certo, cada um responderá a Deus por seus atos e é isso que as pessoas precisam entender. O aborto é uma escolha, mas a morte da mulher que aborta num fundo de quintal não é. Para quem não pode recorrer às luxuosas clinicas em navios no meio do oceano, a morte é uma certeza. E é contra essa certeza injusta que a lei deve lutar.


FONTES:

-http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2010-06-05/pesquisa-revela-que-uma-em-cada-sete-mulheres-ja-abortou-no-brasil

-http://www.revistaforum.com.br/2016/09/09/vitima-de-estupro-menina-de-14-anos-e-humilhada-por-promotor-durante-audiencia/

-http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/05/10/brasil-tem-mais-de-20-milhoes-de-maes-solteiras-aponta-pesquisa.htm



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