quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Pra não dizer que não falei das flores...


Um repórter cinematográfico morreu no meio de uma manifestação contra o aumento da passagem no Rio de Janeiro. Ele virou notícia na grande mídia, mas sua morte, estranhamente, não teve o mesmo impacto na emissora onde trabalhou por cerca de 10 anos. Minutos após a fatalidade (ou homicídio doloso), o fato já estava sendo explorado exaustivamente pelo maior veículo de comunicação do país, mas veja que ironia, tantos outros membros da imprensa foram massacrados pela polícia e não receberam a mesma comoção. Talvez seja porque esses repórteres não eram parte da grande imprensa, não serviam aos mesmos interesses e por isso foram vistos como baderneiros sem causa. Mais irônico ainda é o esforço maciço das grandes emissoras em condenar os manifestantes e voltar a opinião pública contra eles. Que interesse há nisso? Que interesse um deputado pode ter em fomentar a violência em uma manifestação que se iniciou de forma pacífica? Que interesse tem uma revista em desvirtuar as lideranças de um movimento que luta, entre outras causas, pelo fim da corrupção? Pelo enfraquecimento dessa corja que vive do dinheiro público e se vangloria da nossa miséria? É estranho... Só não é mais estranho que o silêncio de uma certa emissora de televisão durante a Ditadura Militar. Queria muito entender porque a perda de um colega doeu de forma tão profunda na mesma emissora que "engoliu" o "suicídio" de Vladimir Herzog nos porões do DOI-CODI. Não era pela censura, já que outros colegas mais, digamos, comovidos, burlaram a fiscalização dos militares e alfinetaram o regime até inflamar a população contra os opressores. A mídia atual, ao contrário, parece insistir em jogar a revolta popular contra os oprimidos. Não apoio o que aconteceu com o colega Santiago, mas usar sua morte como arma não me parece sinal de nobreza. Era um repórter, um brasileiro, uma vida.

Em ano de Copa, o mundo se prepara para conhecer o Brasil e a imprensa internacional, que já estava assustada com os preços estratosféricos cobrados pelo aluguel de salas e equipamentos, agora se apavora com a guerra nas ruas. Mais apavorados devem estar os investidores, que já não tem a mesma confiança na política e economia brasileiras. A dívida interna cresce dia após dia, alavancando a inflação que já começa a apertar no bolso. Não há saúde, educação nem transporte de qualidade. Nossas rodovias são o retrato do que há de mais retrógrado, fazendo com que boa parte dos alimentos e insumos se percam no caminho até nossos portos, também ultrapassados. Por falar em portos, Cuba acaba de ganhar um dos mais modernos do mundo! E o melhor é que foi um singelo presente do povo brasileiro. Isso mesmo, nossa saúde vai mal, nossa estrutura logística vai mal, nossa educação vai mal, mas o porto de Cuba, esse vai muito bem.

O Brasil é único país do mundo onde o ato de se manifestar é considerado mais nocivo que o ato de desviar recursos públicos ou utilizá-los indiscriminadamente. Mas isso tem uma explicação que, nas sábias palavras de um colega, se resume em fazer as leis para cumprir onde, quando e como quiser. O povo não faz as leis e parece estar cada vez mais refém de seus ditos representantes. A situação piora quando a mídia dá à massa a visão que seus financiadores querem. E quem são os financiadores? Adivinha... O povo acostumado à migalhas não busca se libertar da mão que o alimenta. Mal sabe que se de um lado vem o pão, do outro vem a mordaça. É preciso falar enquanto há voz e a voz não está na grande mídia. Quanto mais cedo a população perceber que deve buscar por si mesma as suas verdades, melhor. 

A verdade é que a imprensa é refém de razões alheias à vontade do povo e à sua própria. Por isso, toda informação, por mais fiel que pareça, pode ter sido corrompida. Não é saudável aceitar como verídicos fatos tratados em uma ilha de edição. Não se pode acreditar em leis duvidosas que tem como único objetivo reprimir à massa sob o pretexto de levar segurança. Esse caminho só conduz a um único fim que nós já conhecemos. E justamente porque conhecemos é que devemos combater com veemência.

A sociedade brasileira é hoje prisioneira da violência. Isso porque a confiança em nosso Judiciário é tão precária que serve de estímulo às práticas criminosas. É, no Brasil o crime compensa e o cidadão de bem vive enjaulado, assaltado pelo governo e oprimido pela bandidagem de toda espécie. Ter medo é questão de sobrevivência, mas não pode ser a única reação diante de tamanha crueldade. É preciso lutar para que a máquina pública sirva ao povo, mesmo que nesse processo vidas se percam. Hoje, os jornalistas sentiram na pele a perda de um colega. Amanhã, a sociedade pode sentir na carne os grilhões de mais uma ditadura. Só nos resta lutar até que tudo mude ou até que a última voz se cale e sejamos um país de mudos. 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Breve retrospectiva de 2013


2013 se despede dos brasileiros como sendo o ano de maior efervescência política, cultural e social da História. De janeiro a dezembro assistimos a indignação de pessoas que nunca se imaginaram lutando por direitos! Até o início desse ano, estávamos no limite entre a revolta pacífica e o conformismo, mas num instante, por razões diversas e independentes, as mesmas pessoas que criticavam a podridão do governo no conforto de suas casas descobriram que podiam sim ir às ruas. E elas foram... O resultado disso foi uma demonstração de civilismo que se estendeu a contragosto da mídia comprada e dos governantes corruptos. Tentaram desmerecer o movimento, tentaram incriminar inocentes, tentaram até mesmo sufocar os fatos com as novelas nossas de cada dia (e continuam tentando) mas o resultado é o mesmo: as pessoas ainda estão pensando, opinando e agindo.

Tentaram censurar a Internet e incriminar aqueles que expressam suas ideologias (contrárias ao sistema) sob o argumento de que estes "criminosos" virtuais estariam conspirando contra pessoas de bem. Eles buscam mecanismos para calar a voz dos que questionam e nem se esforçam mais para esconder essa ditadura escrachada. As lideranças estão caindo, alguns presos, outros misteriosamente mortos. O que dizer? Como agir? Ninguém sabe ao certo... Muitos irão desistir, mas outros tantos vão guardar dentro de si a centelha da mudança. A semente foi plantada e mesmo que alguns não possam ver o resultado desse trabalho, ele será feito. Fomos às ruas, incomodamos...e vamos continuar.

Também foi em 2013 que o mundo descobriu aquilo que já se imaginava: os Estados Unidos da América se tornaram o "Grande Irmão" das nações. Tudo, desde fatos irrelevantes do cotidiano até informações confidenciais de governos são cuidadosamente armazenadas e utilizadas por esse país "gafanhoto". Como soubemos disso? Graças à coragem de um jovem chamado Edward Snowden, ex agente da NSA (Agência Nacional de Segurança). Ele, que resolveu falar sobre um trabalho de espionagem que afeta pessoas em todo o mundo, agora é considerado persona non grata em seu próprio país e só conseguiu asilo político, vejam só, na Rússia. Afinal, nem todos conseguem ter voz diante de uma nação como os EUA e sim, é isso mesmo que você pensou: a Gerra Fria nunca acabou, os envolvidos apenas deram um tempo. Recentemente Snowden enviou uma carta aos Brasileiros pedindo asilo aqui, em nosso país. Há rumores de que um grupo ligado ao governo brasileiro está abrindo caminhos para a vinda do ex agente, mas nada é certo e pode ser que o destino dele, que já é considerado por muitos um herói, seja padecer nas garras da nação mais imperialista que o mundo conheceu...

Outro fato marcante de 2013 foram as bizarrices da política brasileira. Um tal deputado (e pastor) Marco Feliciano (PSC-SP), assumiu nada mais nada menos que a Comissão de Direitos Humanos. Obviamente o resultado disso foi uma perseguição maciça às minorias, entre elas, o público gay. Felizmente, o nobre e insano pastor abriu mão da presidência da Comissão, mas a bancada evangélica (ironicamente isso exite num país considerado laico em sua Constituição) já estuda a possibilidade de eleger outro presidente com a mesma ideologia de Feliciano para a Comissão em 2014. Claro que isso é uma medida eleitoreira, já que eles viram na visibilidade de Feliciano um chamariz de votos do público evangélico em 2014, mas vamos ver até onde a coisa vai...

Também foi em 2013 que assistimos a condenação dos nossos queridos mensaleiros. Sim, a Justiça existe, mas parece que, assim como a grande mídia, ela também levanta bandeiras. Digo isso porque o mensalão tucano está à beira do esquecimento e ainda não vimos muita coisa a respeito... Aliás, um tal de Aécio Neves deve disputar à presidência do Brasil em 2014 e não parece nem um pouco incomodado com o "suposto" desvio de verbas envolvendo o seu partido. Enfim, isso são cenas para um capítulo à parte, já que o futuro e as eleições de 2014 só a Deus pertencem. 

Em relação ao meio ambiente, o nordeste assistiu a maior seca dos últimos anos, no Rio, como de costume, houve alagamentos, pessoas desaparecidas e milhares de desabrigados e, no Espirito Santo, cidadãos também se desesperam por não terem mais água potável e nem alimentos por causa dos estragos trazidos pela chuva. O problema foi tão grave que pela primeira vez desde que foi eleita, a nossa Presidenta foi ao território capixaba. Em meio a esse cenário de destruição, é impossível não fazer um simples questionamento: se o nosso país não consegue manter a segurança e a qualidade de vida de seus patrícios, como poderemos garantir essa mesma proteção há turistas de todo o mundo? Como realizar uma Copa num país assolado pela violência e onde uma parcela considerável da população perdeu praticamente tudo que tinha? Francamente, quem ganhou com a Copa foram as empreiteiras, alguns políticos corruptos e donos de grandes marcas, ou seja, quem já tinha dinheiro. Os pobres continuarão pobres e os estádios faraônicos, nossa única herança, vão perecer por causa do alto custo de manutenção. Resumindo, o Brasil não precisava de Copa, mas muitos brasileiros comemoraram mesmo assim ao saberem que seríamos o país sede. Fazer o quê...uma hora a ficha ia cair.

Falando agora sobre religião, também neste ano recebemos em nosso território o primeiro Papa Latino da História. Francisco veio ao Brasil trazendo uma bela mensagem de paz e união. Por várias vezes o pontífice elogiou os brasileiros e ainda se despediu dizendo aos inconformados com o cenário político que continuassem defendendo seus ideais. Em todo o país pessoas comuns seguem o conselho abençoado, pedindo a Deus que esse clamor seja ouvido pela massa, mas o futuro é incerto e o receio agora é que o sentimento de indignação dê espaço ao falso patriotismo trazido pela Copa do Mundo. Certa vez ouvi dizer que o Brasil não é um país e sim um time de futebol. Queria muito pensar que isso é um equívoco, mas acho que há um sombrio fundo de verdade nessa afirmação... Enfim, se os funcionários mal pagos e insatisfeitos voltarem ao trabalho e os nossos estádios (superfaturados e mal feitos) ficarem prontos a tempo, nós poderemos então saber que tipo de efeitos a Copa vai trazer para a nossa sociedade. Vamos esperar...

Resumindo, espero que 2014 seja um ano promissor e que as urnas sejam apenas o reflexo da mudança que nós queremos. Desejo ainda uma polícia menos militarizada e uma política mais limpa e voltada aos interesses do povo. Desejo que os brasileiros não assistam a um novo golpe, mas se for, que seja para que o povo suba ao poder. Desejo que a Internet não seja censurada e que a Imprensa seja mais livre (e ética). Quero ainda saúde para o povo, oferecida por médicos mais humanos, venham eles daqui, de Cuba ou de Marte. Desejo que as pessoas pensem e não se deixem apenas levar por ideologias. Toda ideia propagada por muito tempo é corrompida, por isso, é preciso repensar os velhos conceitos. Desejo simplesmente isso: que o povo pense! Se a gente não pensar, alguém vai fazer isso e os resultados serão sempre os piores. Em suma, desejo um 2014 ainda melhor que 2013 e que os acontecimentos inseridos nesse novo ano sejam, de fato, dignos dos brasileiros. 

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

No Reino Tupiniquim


Hoje eu quero desabafar sobre essa vontade desenfreada que nós temos de levar vantagem, mesmo que seja escondendo à sete chaves tudo que temos de mais podre. Parece que estou falando apenas sobre política, mas não, estou falando também sobre nós, brasileiros. Qualquer um de nós pode cometer erros, como fazer um julgamento equivocado, mas tem erros que não são cometidos, digamos, por engano. Ninguém se enriquece ilicitamente por engano, ninguém causa dano ao erário por engano, ninguém desvia verbas para financiar campanhas por engano. Pessoas até podem ser presas por engano, mas não depois de um processo que se arrasta há oito anos e onde foram usados todos os tipos de recursos aceitos pela nossa justiça. Pessoas podem sim ter um passado glorioso e ao mesmo tempo um presente que cause vergonha. Da mesma forma são os partidos, mas de que adianta uma história de lutas e presos políticos se o legado que fica é o de políticos presos? Muitos presos não tem conforto, acesso à saúde ou dignidade. Muitos presos são tratados como lixo e ao se sentirem descartados se voltam contra a sociedade. Talvez por isso a sociedade não acredite na eficácia do nosso sistema prisional e talvez seja realmente proveitoso ter políticos fazendo uso desse serviço. Quem sabe vendo a realidade, que vai muito além de tomar água de torneira, as pessoas que se elegem às custas das mazelas do povo trabalhem, enfim, para o povo? A esperança existe! 

Outro fato que está meio atravessado na garganta do povo é a demora no julgamento do mensalão mineiro ou do PMDB, como também é conhecido. Afinal, o "valerioduto" foi baseado no esquema construído em 1998 para a candidatura do tucano Eduardo Azeredo. Ironicamente, Fernando Henrique, Aécio Neves e demais tucanos de peso tripudiam dos corruptos condenados no mensalão petista e literalmente escondem Azeredo, que até então não foi visto nos eventos que preparam a candidatura de Aécio à presidência. Será que a Justiça brasileira também levanta bandeiras? Será que teremos um tucano na presidência? Será ele Aécio Neves? Pobres de nós com tantas perguntas e poucas respostas. Fato é que a apreciação do mensalão mineiro deve ficar para 2015, depois que as urnas derem o seu veredito. Conveniência? Não sei...

E como a insatisfação não para por aí, preciso falar sobre os brasileiros de Paracatu. Não faz muito tempo a cidade foi às urnas sob a proposta de uma mudança. Hoje o que vemos é uma correria desmedida para saquear os cofres públicos. É CPI para apurar irregularidades em comunicações, é perseguição política, é terceirização de hospital, é remédio controlado que falta, enfim, em menos de um ano de governo só posso dizer que a mudança foi mesmo "pra valer", mas não pra melhor. Me dói como eleitora, me dói como cidadã, me dói como brasileira. Dói ver que a honestidade pode ser facilmente deixada de lado quando o que está em jogo é o dinheiro. E não importa se esse dinheiro vem do suor do trabalho ou é usurpado do contribuinte, todos querem sua parte. O povo produz, o bolo cresce, poucos comem. É assim desde os primórdios da nossa história política. Será que o problema é o político, será que é a política ou será que é o povo? Acho que é um pouco de tudo.

Podemos culpar a forma de fazer política, já que os partidos não conseguem eleger diretrizes que beneficiem o povo e, em vez disso se dividem em situação e oposição brigando entre si a cada novo mandato. A culpa também é do político, que ao chegar ao poder trabalha denegrindo o trabalho de seu antecessor sem se preocupar em dar segmento ao que foi iniciado. Se não há acordo, obviamente não há progresso. E por fim, a culpa é do povo, que mesmo ciente de todos os problemas ainda se acomoda em sua descrença na verdadeira mudança.

O povo não foi às ruas defender os mensaleiros, mas alguns "companheiros" estão combatendo duramente o ministro Joaquim Barbosa pela internet. Seu erro, se é que se pode dizer, foi uma mera formalidade. E daí se as cartas de sentença não foram expedidas antes das prisões? Isso muda a verdade dos fatos? Isso torna os réus inocentes? Acho que não. E acho mais! Acho que companheiro de criminoso, criminoso é. Quem apoia essa quadrilha não tem dignidade para pedir o voto dos brasileiros em 2014. E isso vale para todos os mensaleiros, inclusive os tucanos. Vamos guardar desde já esses nomes para assegurar que eles não permaneçam no poder. Afinal, o problema do Brasil não está só entre o cidadão e a urna, mas também entre o pensamento e a voz. Quem se revolta calado concorda com o sistema e, cá entre nós, há algo de podre no Reino Tupiniquim que não merece a conivência da população. Quem viver (e lutar) verá.

sábado, 9 de novembro de 2013

Raio X da Violência


Recentemente, em conversa com um comandante da Polícia Militar, me vi diante de uma realidade que vai além das minhas humildes e superficiais conclusões sobre a violência. Ele me mostrou através de dados que a raiz do problema não está só na falta de políticas públicas eficientes, mas também em fatores que, a princípio, não parecem ter nenhuma influência. Em nossa cidade, é comum que as pessoas coloquem a culpa da alta da criminalidade na Polícia, tanto Civil quanto Militar. O que muitos desconhecem, segundo o militar, é que cidades próximas, como Unaí, por exemplo, enfrentam situação semelhante, porém com mais polícia nas ruas e menos cidadãos para proteger. Após o encontro, resolvi pesquisar sobre o assunto e assim ver o que as estatísticas podem nos dizer. Enfim, vamos aos dados. 

Segundo o estudo Mapa da Violência 2013, a taxa de mortes por arma de fogo no grupo Jovem (15 a 29 anos de idade) em 1980 era de 9,1% enquanto que no grupo Não Jovem (acima de 29 anos) era de 3,5%. Em 2010 as taxas alcançaram 42,5% e 10,7% respectivamente. Ainda de acordo com observações feitas pelos pesquisadores, entre 1980, ano adotado como ponto de partida do estudo, até 2010, último dado disponível, morreram no Brasil um total de 799.226 cidadãos vítimas de armas de fogo. Se essa cifra já representa um número assustador, é ainda mais preocupante saber que 450.255 mil deles eram jovens entre 15 e 29 anos de idade, ou seja, duas entre cada três vítimas fatais das armas em 31 anos de estudo foi um jovem. Agora, diante da descoberta, resta saber quem é esse jovem. 

Um a cada quatro alunos que inicia o ensino fundamental no Brasil abandona a escola antes de completar a última série. Quando se chega no ensino médio, o panorama é ainda mais crítico: apenas 41% dos jovens de 18 a 20 anos se formou. É o que indica o Relatório de Desenvolvimento 2012, divulgado no início de 2013 pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). O documento mostra que apesar de ter avançado nas últimas duas décadas, o Brasil ainda tem um IDH menor que a média dos países da América Latina e Caribe. O país está na posição 85 do ranking, que leva em conta a expectativa de vida, o acesso ao conhecimento e a renda per capita. No que se refere à evasão escolar, o Brasil tem a 3ª maior taxa entre 100 países! Obviamente houve um progresso ao longo dos anos, mas a realidade ainda carece de profundas melhorias. 

É esse jovem, entre 15 e 29 anos, com baixa escolaridade e pouca receptibilidade no mercado de trabalho que está sendo arrebanhado pelo crime. Ele vem de famílias igualmente menos instruídas e muitas vezes desestruturadas. Quase sempre a renda disponível vem de programas assistenciais e não supre todas as despesas. Não é incomum ver essas famílias migrando para a periferia por não conseguirem se manter nos padrões de moradia encontrados nas cidades. E sem o amparo do Poder Público, que não oferece os serviços mais básicos, esse jovem está fadado a buscar na violência a oportunidade de lutar por seu próprio espaço. Em 2012 o documentário Falcão, Meninos do Tráfico, produzido pelo rapper MV Bill, mostrou a dura realidade de crianças que ostentam armas em morros do Rio de Janeiro. Elas protegem o tráfico e garantem o lucro de traficantes que, pasmem, são admirados como heróis. É, eles lutam contra o sistema que oprime quem não teve, digamos, sorte na vida. 

O mais chocante é ver o depoimento de uma jovem mãe. Ela, menor de idade, segura no colo o filho de 2 anos e 11 meses e diz à repórter que a criança já sabe o que é o tráfico, fala em armas e identifica o cheiro de maconha. Eles vivem numa favela carioca e, apesar da estranheza que a revelação pode causar, apesar dessas pessoas saberem que estão na criminalidade, elas vivem normalmente. Onde está o erro? Creio que não está num único lugar, mas uma coisa é fato: se o salário mínimo correspondesse ao disposto no art. 7°, IV da CF/88, ou seja, fosse "capaz de atender as necessidades vitais básicas do cidadão e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim", certamente o crime perderia espaço. Quando o Estado falha, se omite, se corrompe, o povo fica a mercê de quem estende a mão primeiro e, o caminho do mal, é a opção mais próxima daqueles que não tem quase nada. Eles estão errados? Para quem vive na zona de conforto, pode até ser. O problema é estar lá, no coração da periferia, privado de segurança, empregos formais, saneamento básico, moradia digna, saúde e educação. São esses os jovens que morrem em trocas de tiro com a polícia ou com gangues rivais e sabe o que é pior? Eles não tem medo. 


Não há receitas mágicas para acabar com a violência ou o tráfico que a sustenta. Muitos são os caminhos possíveis, mas eles vão além de meras "bolsas esmola". Até porque, se formos falar de auxílios, os nossos parlamentares, que são os mais CAROS do mundo, ainda recebem vultuosos valores para tudo, até para comprar seus maravilhosos ternos. As famosas "bolsas", fruto de uma política mesquinha e eleitoreira, são na verdade uma ofensa ao povo brasileiro. Elas condicionam a população a viver de migalhas enquanto o bolo cresce e é dividido por poucos, às escondidas, bem longe das favelas e da seca no nordeste. Por isso, acredito que para o Brasil mudar não é preciso mágica, mas sim ética e muita vergonha na política. Aliás, é preciso mudar a nossa forma de fazer e ver a política, porque entra esquerda sai direita, a merda é sempre uma só.


Fontes:


* Imagens: Internet

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Somos Todos Hipócritas


Segundo o Aurélio, hipócrita é aquele que se comporta com hipocrisia; que age como se tivesse um sentimento que não possui; que finge ou dissimula sua verdadeira personalidade ou sua maneira de pensar acerca de uma pessoa ou coisa, geralmente, por possuir interesses ou para se esconder. Dentro desse significado podemos incluir a quase totalidade da sociedade moderna, ou seja, eu e você também estamos nesse meio. Enfim, nós podemos defender muitas causas, mas será que realmente concordamos com todas? E pior, mesmo concordando em conceitos, será que refletimos isso em atitudes? Pois é, tenho visto muita coisa nas redes sociais que me faz pensar sobre o nosso senso coletivo. E digo isso analisando a situação como um todo, até no que me diz respeito. Como exemplo, podemos citar o resgate de beagles no Instituto Royal. Bom, eu sempre fui contra testes em animais, mas também tenho o infeliz (ou feliz) hábito de tomar medicamentos quando me sinto doente. Seria o tal mal necessário? Em parte, eu diria. A lei permite o uso de animais para experimentos científicos, mas "com o mínimo desconforto possível" e "quando não há meio substituto", devendo os animais sofrerem eutanásia logo após os procedimentos. Mas não foi essa a realidade que os "bandidos" viram ao chegarem no Instituto. O que viram não era ciência. Era mais um depósito de cobaias, algumas mortas, outras feridas, que talvez fossem reutilizadas...ou talvez não. A Lei não proíbe os testes, mas no caso de medicamentos, há uma necessidade expressa em outros dispositivos legais de realizar testes em cobaias antes de testar em humanos. Sim, o teste de medicamentos em cobaias é lei, mas o de cosméticos não! O problema é que é mais fácil matar cobaias do que investir em tecnologias mais eficientes e éticas. Trata-se de preço e, quando o dinheiro entra pela porta da frente, a moral sai pela porta dos fundos. É triste, mas é o mundo.

Outra coisa que me intriga são as nossas tecnologias. Os mesmos manifestantes que lutam pelas ruas do país buscando dignidade e respeito (entre eles eu e você) retratam cenas desse momento histórico e postam na web em tempo real. Para isso fazem uso das mais variadas tecnologias, como smartphones, tablets, etc... mas ignoram o fato dessa mesma tecnologia ter sido produzida por trabalhadores em regime análogo ao escravo em alguma plataforma de exportação na Asia. Pois é, a modernidade também tem suas cobaias, que como os amáveis beagles, servem de base para que tenhamos sempre os melhores computadores, celulares, câmeras fotográficas, entre outros. Mais uma vez, é o dinheiro vencendo a decência. Será que alguém vai invadir as fábricas chinesas e libertar aqueles chinesinhos fofinhos e inocentes? Um dia, talvez...quem sabe?


Fato é que enquanto digito esse texto, provavelmente uma criança foi estuprada em algum lugar, uma mulher foi traficada para a Europa, um jovem usou crack e a polícia torturou e matou um inocente para em seguida colocar a culpa em traficantes na Rocinha. Claro, a realidade é sempre pior, mas relevadas as respectivas estatísticas, vamos continuar com essa análise torta da nossa sociedade. Na verdade, somos uma sociedade torta que luta por causas nobres desde que elas não esbarrem na nossa linha de conforto. E sim, você pode ser uma pessoa íntegra, que nunca comeu carne, sempre usou produtos éticos, se atenta à política do seu país e faz algo para modificá-la, mas ainda assim a soja que você come foi plantada em uma área que muito provavelmente era cerrado e isso te faz responsável pela destruição constante desse e de outros biomas. O que quero dizer é que não importa o quão correto você seja, sempre haverá algum dano gerado ao meio pelas suas condutas, seja meio ambiente ou meio social. Foi covardia o que fizeram com os beagles? Claro! Isso é inegável! Mas também foi covardia o que fizeram com os judeus no Holocausto e isso não impediu algumas descobertas feitas com base no sofrimento daquelas pessoas de serem aplicadas à medicina e ciência modernas. É correto? Certamente não, mas para muitos, é considerado progresso. 


Talvez a nossa missão seja mesmo progredir aprendendo com nossos erros e nos policiando diariamente para fazer desse mundo um lugar melhor. Sem a força moral de algumas pessoas realmente preocupadas com a dor do próximo (como eu e você), talvez a sociedade mergulhasse num mar de sombras sem esperança de retorno. Talvez essa onda de consciência experimentada por pessoas no mundo inteiro traga a evolução que tanto precisamos, ou talvez incomode aqueles que vivem do sangue de inocentes e provoque, num futuro próximo, mais uma grande Guerra. Vai saber... Acho que o futuro é um salto no vazio e a gente só sabe o que tem no fim quando pula. 

No fundo vegetarianos, ativistas, militantes, eu e você somos todos hipócritas, mas nem por isso deixamos de fazer o que julgamos correto ainda que isso não resolva todo o problema. Ao menos a parte que nos cabe está sendo realizada. A questão é: Isso basta? Não. É nossa obrigação dar de nós o melhor que tivermos para modificar o meio em que vivemos. Caso contrário, além de hipócritas, seremos o mais fiel retrato desse sistema obscuro e sem face que dia após dia nos modela e oprime.