quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Algodão
Eu brinco de saltar nuvens quando as estrelas dormem e assim consigo trapacear o tempo.
É que as horas ininterruptas de ausência dão coragem pra cruzar a linha do horizonte azul e branco.
No fim, sei que as cores que vejo são meu próprio reflexo, distorcido pela chuva fina.
Faz frio, mas não é tanto...
Os anjos também sentem frio e choram como crianças quando o coração pede.
Será que também sentem medo? Não sei, mas devem sentir. Há algo de divino no medo.
Ele nos afasta dos caminhos ruins, mas como saber qual o caminho certo se todos parecem iguais?
Os anjos tem asas.
Eu também deveria ter...
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
E agora José?
José acordou cedo, como todos os Josés. Com seu macacão de operário, partiu rumo ao metrô. Estava lotado, como de costume e ele chegou ao trabalho atrasado, mais uma vez. Não é fácil cumprir horários numa cidade tão grande. Mas o chefe de José não entendeu, como todos os chefes. E José se viu sem rumo, caminhando só pelas ruas cinzentas. O dia era de sol, mas José não via. Perdido no tempo, ele remoía o café mal tomado e a noite mal dormida. O peso nos ombros incomodava. Peso de ser José no mundo. No peito, levava as vozes de todas as construções, mas não conseguia fazê-las ecoar. Sua própria voz já não lhe pertencia. O que era seu? Em passos lentos ia rasgando as praças e calçadas sujas num silêncio que ardia nos olhos. Ouvia ao longe uma pergunta sem resposta que subia ao céu como numa prece. E ele seguiu embalado num samba que era a história de sua vida. “Você marcha José, José, para onde? José, para onde? E agora José?”
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Quem é o povo?
Todos nós precisamos de algo em que acreditar e por isso buscamos os ídolos. Essas pessoas de qualidades caras aos nossos olhos nos motivam através do exemplo, tornando-nos melhores ou piores. O fato é que, boa ou má, a influenciação dos jovens por figuras públicas é uma constante.
Num passado não muito distante, os grupos que faziam a cabeça da juventude eram RPM, Ultraje a Rigor, Titãs, Legião Urbana, Barão Vermelho, Kid Abelha, Ira! entre outros. Todos carregados pelas impressões de um mundo recém saído da Guerra Fria, com fortes influências norteamericanas e focados na política nacional e nos movimentos estudantis. As letras produzidas se eternizaram por sua presença de espírito ao relatar eventos sociais de forma clara e engajada.
Hoje, porém, o que se vê são grupos sem grandes temas, alheios aos fatos de seu tempo e sem maiores pretensões. Não tem essência e são prefabricados em conformidade com o estilo dominante. São literalmente feitos para o sucesso, mas não para a história e seus fãs apenas reproduzem essa triste realidade.
Quando analisamos a letra de Ideologia, não é difícil perceber a avalanche de sentimentos que vão desde a avidez por mudanças até o pseudoconformismo com a estagnação. Isso porque Cazuza nasceu na elite que sempre desprezou e que agora o recebia novamente em seus círculos sociais. Num país em que os partidos de esquerda prometiam inovações utópicas, a realidade de corrupção e jogos de influência incomodava. Assim, com seus sonhos quebrados frente a fatos que não poderia mudar, ele mergulha num pessimismo amargo e áspero relembrando seus heróis, entre eles Jim Morrison, Janis Joplin e Jimi Hendrix,que perderam a vida para as drogas.
Cazuza se rebelava contra a política suja que via e claramente buscava algo em que acreditar. Essa revolta interna que transbordava em palavras secas ecoou não só na memória dos que viveram nesse período, mas também nas vozes de tantos outros que ainda hoje se sentem tocados por esse hino de guerra ao sistema.
A verdade é que a nova geração não tem nada efetivamente produtivo para passar adiante. Enquanto no mundo o clima é de revoltas em massa, nosso país segue na mais perfeita paz: a paz dos que se sujeitam aos mais severos desmandos de políticos sem demonstrar a devida indignação. É preciso questionar, se fazer ouvir, ir às ruas, lutar! É essa inércia desmedida que gera nosso atraso e não as falhas do governo, como se diz por aí. Todos dizem que o povo tem o governo que merece, mas quem é o povo? Na hora de reclamar, "todos nós", mas na hora de fazer, é “ninguém”.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Amado meu
Que nossos momentos de tristeza não sejam maiores que nossas alegrias.
Que as nossas vitórias sempre pesem mais que nossos tropeços.
E que ao cair, possamos levantar juntos, porque assim Deus quis, quando cruzou nossos caminhos.
Que nossas desavenças sejam superadas e nunca sirvam de pedras para serem atiradas oportunamente.
Que nosso lar seja sempre abençoado, sagrado e imune às pequenezas desse mundo, porque nosso amor não é desse mundo e não pode ser mensurado.
Que no seu abraço eu encontre a paz que preciso para viver meus dias e que meu colo seja o seu refúgio de todas as horas.
Que Deus fale através de mim aquilo que for para o seu crescimento e que, da mesma forma, Ele possa agir por você dando-me palavras de força e fé.
Que eu veja em nossos filhos a esperança nos dias bons e que, por amor a eles, possamos ser exemplos de coragem e união inabalável.
Que nossos sonhos se encontrem como afluentes de um mesmo rio, somando forças, tomando proporções cada vez maiores, até atingir a imensidão do mar.
Que meu coração te ampare quando o mundo cair sobre seus ombros, da mesma forma que o seu vai me acolher quando meus passos fraquejarem.
Porque amor não é acaso nem renúncia. Não diminui nem condena.
Amar é compreender acima de todas as coisas.
Afinal, o acaso une pessoas, mas só Deus une almas.
E a renúncia não existe, porque tudo é pensado a dois.
Amar é partilhar todos os momentos, com a sabedoria dos velhos e a doçura das crianças.
É não precisar do outro, mas saber que com ele se chega mais longe.
Amar é se entregar às incertezas da vida ao lado de uma alma-irmã.
Por isso eu entrego a Deus o amor que temos e peço que Ele renove nossas forças e nossos votos.
E que esse amor seja luz e benção divina, amparando nossos espíritos e nos conduzindo ao Pai.
Que a paz reine hoje e por todos os dias de nossas vidas.
Assim Seja!
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Poeira de estrelas
Quando você foi embora, pai, eu chorei.
Quis tanto te agarrar pelo braço...
Mas a força me faltou na hora.
Ficou só o silêncio.
Outro dia relembrei velhos rostos.
Pensei ter visto o seu e me abri num sorriso.
É que a esperança mora nesse peito.
Sinto que meus versos te embalam a noite.
E sei que na minha calma se esconde sua presença.
Somos uma coisa só.
Porque tem coisas que não se acabam no óbvio.
Elas transcendem o céu e o tempo.
São como singelos pedaços de Deus.
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