sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Para cada realidade, uma escolha. Para cada escolha, respeito.


As pessoas discutem muito sobre o aborto, mas o ponto principal sempre fica fora do debate: por que as mulheres abortam. Há sim inúmeros métodos contraceptivos e, aparentemente, eles estão disponíveis para todas as pessoas. Mas é só aparentemente. Talvez eu e você que me lê tenhamos o mínimo necessário para prevenir uma gravidez. Tivemos diálogo com nossos pais, sabemos como nosso corpo funciona, temos acesso à profissionais da saúde que nos orientam bem e, ao menos no meu caso, nunca sofri violência física ou sexual de quem quer que seja, muito menos dentro da minha família. Mas... essa não é a regra.

Nossa sociedade é extremamente machista e o que não faltam são vítimas sendo desmoralizadas sempre que denunciam um estupro. Houve até um caso recente em que uma menor de idade conquistou na justiça o direito de abortar após ter sido abusada pelo padrasto. O promotor responsável pelo caso disse, entre outras coisas, que ela era uma vagabunda e que gostaria que ela tivesse 18 anos para que ela cumprisse pena com detentas mais velhas e então fosse submetida a todo tipo de violência. Isso veio de um Promotor de Justiça. Isso foi veiculado pela imprensa. E isso não teve, nem de longe, o impacto que deveria.

Uma mulher que aborta, está acuada. Ela tem um filho que não quer. Muitas vezes esse filho é fruto de uma violência que ela sequer pode denunciar. No caso da adolescente violentada pelo padrasto, por exemplo, houve pressão da mãe para que a vítima inocentasse o agressor. A própria mãe era conivente com a violência e condenou a atitude da filha em buscar ajuda. O medo cala, principalmente quando há mais dedos apontados do que mãos estendidas.

Falar dessa realidade é difícil, porque não é algo que eu vivencio. Mas só porque não sinto na pele, não quer dizer que não exista. Caso a mulher estuprada seja obrigada a ter a criança, os laços maternais serão prejudicados desde o ventre, o que aumenta muito as chances de abandono logo após o nascimento. Sempre nos horrorizamos quando vemos bebês abandonados em lotes vagos, como se não tivessem valor. Realmente, é de se horrorizar. Mas nunca pensamos no tipo de sentimento avassalador capaz de levar uma mãe a desprezar um filho.

A mãe que descarta a sua criança, antes ou após o parto, é uma mulher despedaçada, desesperada e descrente. Não mede as consequências de seus atos e vê o filho como um intruso. Um mal que precisa ser eliminado com urgência. Essa mulher cheia de cicatrizes tropeçou na maternidade e se sente completamente perdida. Seria prudente condená-la a prisão logo depois dela ter tomado a decisão mais difícil de sua vida? Será que somos assim tão perfeitos? As estatísticas dizem que não. Segundo pesquisa recente, uma em cada sete mulheres assume que já praticou aborto. E há ainda outras tantas que, por vergonha ou medo, jamais assumirão isso publicamente. O aborto acontece, a gente gostando ou não, aprovando ou não.

Ser contra o aborto é muito simples para mim, que tenho um relacionamento estável e sonho em ter uma família. Um filho, ainda que não planejado, seria muito bem acolhido. Mas minha realidade é exceção e, ainda que por razões religiosas e éticas eu não praticasse um aborto, como cidadã, não posso exigir das demais pessoas o mesmo comportamento.

A Lei deve ser, antes de tudo, universal. Se eu fizer da Lei um instrumento à serviço da minha fé, estarei promovendo qualquer coisa, menos Justiça.

Mulheres morrem o tempo todo em clinicas de aborto clandestinas. Portanto, essa não é uma questão que deva ser analisada sob o ponto de vista religioso, mas sim humanitário. Trata-se de saúde pública, ainda que muitos discordem.

Além disso, nenhuma mulher é obrigada a interromper uma gestação. Ela apenas tem em mãos uma opção que só pode ser utilizada em casos específicos. Até porque, um aborto não é "pílula do dia seguinte" ou qualquer outro método contraceptivo que você compra em farmácias. Um aborto é um trauma para o corpo, para a mente e para o espírito. Por isso, a última coisa que a sociedade deve fazer é julgar.

Como advogada, o que mais vejo são mães aflitas em processos intermináveis tentando receber alimentos de pais desaparecidos. Porque pai é imaculado. Não importa se ignora a existência do filho, ele se torna automaticamente um bom pai se der um par de chinelos para a criança. Já a mãe, pobre coitada, tem que fazer jornada dupla, tripla, cuidar da casa e manter as crianças impecáveis. E ai dela se achar que pode se relacionar novamente. Em pouco tempo fica mal falada, ganha fama de mulher fácil e quase nunca consegue compromissos sólidos, porque tem filhos de outro homem e isso é imperdoável.

Uma mulher que aborta fica para sempre marcada. Uma mãe solteira também. Há cerca de 20 milhões de mães solteiras atualmente no Brasil e elas são rigorosamente cobradas e condenadas todos os dias por uma sociedade machista e hipócrita. Os pais dessas crianças estão bem, obrigado. Continuam imunes às críticas e bem longe dos oficiais de justiça. Tudo certo, como deve ser. E olha que estamos em 2016!

Enfim, o tema é complexo e cada um tem uma opinião formada a respeito. Eu não abortaria, mas se há mulheres que precisam recorrer a essa medida, quero ao menos que elas tenham segurança. No momento certo, cada um responderá a Deus por seus atos e é isso que as pessoas precisam entender. O aborto é uma escolha, mas a morte da mulher que aborta num fundo de quintal não é. Para quem não pode recorrer às luxuosas clinicas em navios no meio do oceano, a morte é uma certeza. E é contra essa certeza injusta que a lei deve lutar.


FONTES:

-http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2010-06-05/pesquisa-revela-que-uma-em-cada-sete-mulheres-ja-abortou-no-brasil

-http://www.revistaforum.com.br/2016/09/09/vitima-de-estupro-menina-de-14-anos-e-humilhada-por-promotor-durante-audiencia/

-http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/05/10/brasil-tem-mais-de-20-milhoes-de-maes-solteiras-aponta-pesquisa.htm



quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Sexo frágil: uma conversa sobre estupro


 


A Índia é considerada pela ONU como o pior país para uma mulher viver, no grupo das vinte nações mais ricas do mundo. Números do Escritório Nacional de Registros de Crimes da Índia apontam para a média de um estupro a cada 21 minutos. Em 2012, foram 244.270 casos de violência contra a mulher, incluídas aqui as tentativas de abuso, agressões e assassinatos. Foi também em 2012 que o mundo acordou para essa barbárie. No dia 16 de dezembro uma estudante de 23 anos que ia para casa após uma sessão de cinema foi brutalmente agredida e violentada por quatro homens e um adolescente. Junto dela estava o amigo, que também foi agredido. 

A conduta da universitária, na visão de seus agressores e da maior parte da sociedade, foi a razão para o crime. Afinal, é contra os costumes indianos uma mulher sair à noite sozinha ou acompanhada por alguém que não seja seu familiar. Diante de mulheres que "abusam de sua condição social", a saída para manter a ordem são os "estupros corretivos", como o que causou a morte dessa jovem chamada Jyoti Singh Pandey. O nome "Jyoti" tem origem no Sânscrito e significa "iluminada". Ironicamente a morte da jovem trouxe uma explosão de luz na Índia e fez com que a rotina de horrores experimentada por essas mulheres fosse exposta e discutida. O clamor por justiça acelerou o julgamento dos acusados, que foram condenados à pena de morte por enforcamento. Apenas o menor, com 17 anos ao tempo do crime, foi internado em um centro de recuperação. 

A vitória da justiça no caso de Jyoti Singh não intimidou os indianos e a prática dos estupros continua. O mais preocupante é constatar que as próprias vítimas corroboram a ação dos agressores. Em 2012, por meio de um estudo, a Fundação Thomson Reuters verificou que 44,5% das garotas se casam antes dos 18 anos e 52% das mulheres consideram justificável apanharem do marido. Esse comportamento encontra respaldo não só na estrutura da sociedade, extremamente patriarcal, mas também na religião. Alguns livros hindus deixam claro a inferioridade feminina na sociedade indiana. O Manusmriti, ou Leis de Manu, afirma que uma mulher não está apta a ser independente em nenhum momento de sua vida. Quando criança, deve viver sob a custódia do pai, quando adulta, sob a custódia do marido, e quando viúva, sob os cuidados do filho homem.

Além do Hinduísmo, o Islamismo também tem um importante papel no massacre diário das mulheres. Nos dois casos, temos sistemas que misturam cultura, religião e política e que reduzem a mulher a uma condição de objeto. Nesse cenário, as mulheres muçulmanas são negociadas entre famílias e entregues, ainda recém saídas da infância, a casamentos com seus algozes. A agressão começa com as vestimentas, sempre carregadas, ocultado todo o corpo. Se uma mulher se mostra, significa que ela está "induzindo" o homem a uma conduta vil. Mais uma vez, a culpa é da vítima. Aquelas que se atrevem a procurar ajuda são ridicularizadas até mesmo pelas autoridades e, em países como Arábia Saudita, uma mulher estuprada que denuncia seu agressor pode ser condenada por adultério. Parece absurdo, mas é dolorosamente real.

O cenário para mulheres, mesmo em países mais liberais, não é diferente. No Brasil, por exemplo, o número oficial estupros caiu, mas ainda temos um caso registrado a cada 11 minutos no país. Os dados são do 9° anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Segundo o levantamento, foram 47,6 mil estupros registrados em 2014, quase 7% a menos que em 2013. Roraima é o estado com a maior taxa de estupros do país, levando em conta os boletins de ocorrência: 55,5 casos a cada 100 mil habitantes. O Espírito Santo registra a menor taxa: 6,1. Só três estados têm uma taxa inferior a 10 casos a cada 100 mil habitantes: é o Rio Grande do Norte, com 8,7, Goiás, com 9,4 e Minas Gerais, com 7,1 casos, respectivamente. A região Sudeste, no entanto, foi a que teve a maior variação de 2013 para 2014. De 874 estupros, passou a 1.475, registrando quase 70% de aumento.

O medo de sofrer violência sexual também foi analisado na pesquisa. Nos 84 municípios brasileiros com mais de 100 mil pessoas, 67% da população tem medo de ser vítima de agressão sexual. O percentual de mulheres que têm esse temor, no entanto, é bem maior: 90%, contra 42% dos homens. Essa realidade foi abordada inclusive no Exame Nacional do Ensino Médio-ENEM 2015, através do uso de figuras ligadas ao feminismo. Na redação, os candidatos também dissertaram sobre a violência doméstica, refletindo sobre causas e possíveis soluções para o problema.

Iniciativas como a da banca que elaborou a edição deste ano do ENEM são louváveis, já que, embora existam leis para facilitar o acesso da mulher à Justiça, o sistema não pode efetivamente garantir a segurança da vítima após a denúncia. Isso acaba por desmotivar a busca por ajuda, dando vitória aos agressores. Apesar disso, a luta continua. No mundo todo vozes femininas começam a se destacar na multidão, mas para cada mulher que se rebela milhares de outras se calam. Em pleno século XXI essa realidade é inaceitável e deve ser duramente combatida. Nessa guerra, as únicas armas realmente eficazes são a informação e a discussão incessante do tema. É preciso agir, falar e trabalhar até que nenhuma mulher no mundo precise sofrer e morrer e silêncio, simplesmente por ser mulher. 
 

Fontes:

*http://virusdaarte.net/india-o-codigo-de-manu/
*http://www.forumseguranca.org.br/produtos/anuario-brasileiro-de-seguranca-publica/9o-anuario-brasileiro-de-seguranca-publica 
*http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2014/06/mulheres-sao-vistas-como-propriedades-dos-homens-no-libano.html
*http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/os-paises-com-maior-incidencia-de-estupros

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Farpas e flores


Todos nós temos uma necessidade inata de sermos aceitos e, como seres sociais que somos, a cada minuto aderimos à uma nova modinha. Essa adesão é quase sempre discreta, mas nem por isso menos perigosa. É que ao buscar a aprovação de um grupo nos afastamos daquilo que nos torna únicos, ou seja, na urgência de ser parte, a gente se esquece que já nasceu inteiro e acaba perdendo um pouco (ou muito) de si.

Fugir desse esquema não é nada fácil. Se você não pensa como a maioria, não se veste como a maioria, não age como a maioria, inevitavelmente será marginalizado. E olha, posso dizer que isso dói. Dói quando você quer se expressar mas as pessoas não te ouvem pelo simples fato de você não professar a mesma fé, não torcer para o mesmo time ou não votar no mesmo candidato. Esse frenesi coletivo vai mais longe, separando pessoas, oprimindo, criando um clima de intolerância e tensão até mesmo dentro de famílias. Tudo isso já parece sério o bastante, mas é ainda pior por causa de um fator: as redes sociais. 

Hoje é quase impossível encontrar alguém que não tenha ao menos uma conta em redes sociais como Facebook, Whatsapp, Instagram, Twitter, entre outros. Até pouco tempo atrás as pessoas mediam sua popularidade pelo número de conexões nessas redes, mas hoje as coisas estão um pouco mais agitadas. Agora a popularidade é medida pelo número de "retweets", "likes" e  "compartilhamentos" e, nesse meio, pensar diferente da maioria nunca foi tão arriscado. 

Ao discordar do pensamento dominante você não estará só afastando as pessoas. Estará também atraindo "haters", que são seres nascidos para odiar. Esse tipo de gente ultrapassou a tênue linha que separa a "opinião" da "agressão" e vive de espalhar ofensas online nos quatro cantos da web. Eles não estão interessados em diálogo porque a troca de ideias por si é uma ameaça à soberania de seu pensamento. Por isso, diante de qualquer questionamento eles explodem numa mistura de ira e razão inabalável. Enfim, a melhor arma contra um "hater" é o oposto de seu comportamento. Se discutir não deu certo, tente respeito, ponderação e educação. Um "hater" que se preza não resiste a isso. 

Por falar em discussão, outro hábito cada vez mais comum são os debates públicos. Não importa onde você manifestou sua opinião, se alguém não concorda, a terceira guerra está armada. E se você pensa que é por amor ao debate, se engana. Boa parte das "trocas de farpas" encontradas na internet não tem outro objetivo além de se reafirmar perante um grupo no qual se busca aceitação. Daí se vê a importância que o "bicho homem" dá para a opinião dominante. Não basta concordar, é preciso defender isso em todas as ocasiões e locais, mesmo nos mais inoportunos. Nesse cenário, amigos se afastam, inimigos surgem e todo tipo de tragédia social acontece. 

Mas como evitar tamanho caos? Bem, uma das saídas é não ter contas em redes sociais. Mas se você é como eu e já não consegue mais viver sem distribuir seus "likes" por aí, existe outra saída: não diga nada que possa desagradar à maioria. Difícil, não é? Como saber exatamente o que pensam as pessoas? Impossível. E sendo impossível adivinhar o pensamento alheio, ainda há uma terceira opção: ligue o "foda-se". Afinal, se você acredita em algo que a maioria desaprova, mas isso que você defende não viola nenhuma lei, qual o problema? É tudo uma questão de opinião. Você não precisa ceder para ser aceito. Se isso for requisito para entrar em algum grupo, desconfie! Existe uma diferença muito grande entre concordar e acompanhar. Um acordo surge de um consenso, de uma troca saudável de ideias. Acompanhar é simplesmente se deixar levar, pegar a onda. 

Não é fácil discordar da maioria. Não é fácil ser tachado e incompreendido. Mas sabe, vale à pena. No fim você descobre que suas convicções são realmente suas e que você tem a liberdade de mudar de ideia sem que isso signifique um "expurgo social". Se restarem poucos ao seu lado, não importa. Nessa vida de efervescências e brevidades, ter algo verdadeiro, ainda que pouco, não é prejuízo: é dádiva. Um verdadeiro presente de Deus. 

sábado, 6 de dezembro de 2014

Brasil: ame ou Miami?




Em junho de 2013 manifestantes invadiram o Congresso pedindo o fim da corrupção. Em outubro de 2014 essa mesma manifestação foi considerada anti governo, embora fosse declaradamente apartidária. Todos os partidos exploraram os anseios apontados pelo povo, mas nenhum com a intenção real de leva-los à cabo. E em meio a todo esse caos, o pior aconteceu. O povo se dividiu, guerreando entre si e culpando gregos e troianos por um fracasso que ultrapassa dimensões continentais. Quem optou por manter o atual governo é constantemente achacado por oposicionistas de si mesmos. E digo de si mesmos porque quem torce contra o próprio país não é mais brasileiro que quem votou no partido X ou Y. Sim, os argumentos antes da campanha eram: o Brasil vai virar Cuba, vamos dividir o país, nordestinos não poderiam votar, quem vota com o estômago não deveria ter título....e uma série de outros gracejos. Depois das eleições veio a melhor parte: intervenção militar pelo fim da democracia. Claro, a democracia só existe se a minha vontade for feita, mesmo que a minha vontade não seja o desejo da maioria. É muito democrático mesmo.

O que mais escuto de amigos e familiares é que eu não tenho o direito de reclamar da corrupção porque votei no atual governo. E da mesma forma eles também não se sentem responsáveis pela bagunça, porque ao contrário de mim, eles não votaram no atual governo. Gostaria apenas de saber quem é responsável então, já que quem votou não tem o direito de cobrar e quem não votou não tem obrigação nenhuma de fazer isso. Afinal, o Brasil é responsabilidade de quem? Porque enquanto os brasileiros brigam entre si buscando culpados, os abusos e desvios permanecem. E pior, numa escala que ultrapassa o Executivo e atinge a todos, inclusive o cara da padaria que adultera a validade dos produtos para continuar vendendo.

A corrupção é isso. Não tem cara, não tem cor, não tem bandeira. E ao contrário do que muitos pensam, não começa no voto e sim no imposto sonegado, no troco errado não devolvido, no “vantageiro” que fura filas. Sim, a corrupção começa no seio do próprio povo e se enraíza no limite de sua tolerância. Explico: se o meu partido se envolve em corrupção mas a corrupção do partido adversário é maior, a do meu se torna suportável. Errado é o outro que roubou mais! Ledo engano. Errados são todos os que roubaram e, mais ainda, os que consideram que o erro de um pode ser absorvido ou apagado pelo erro do outro.

O Brasil pede socorro e não é só pelos bilhões desviados no escândalo do Banestado entre 1996 e 2002, nem pelos milhões recentemente desviados da Petrobras em negociatas com empreiteiras. Empreiteiras essas que financiaram campanhas de diversos partidos, entre eles os dois que protagonizaram a última campanha presidencial. Sim, não há gente limpa nessa história, nem mesmo os eleitores. Todos são igualmente culpados: quem escolheu o Câncer, quem escolheu a Aids e quem escolheu a Inércia. Cada um carrega sua parcela de responsabilidade e tentar se posicionar como algoz não diminui o dever de reparação.  

Um presidente não governa sozinho e, infelizmente, é na “Casa do Povo” que as maiores aberrações acontecem. Prova disso é a alteração da meta fiscal aprovada nessa semana para que o governo não seja responsabilizado por extrapolar nos gastos. Mas vejam, isso não é inédito. FHC já o fez em 2001 e agora Dilma, em 2014. A questão é como eles conseguiram tal proeza se a função da lei é se fazer cumprir e a função do Congresso é justamente garantir que o Executivo esteja na linha. A resposta é simples: a política no Brasil padece de corrupção sistêmica e esse mal não surgiu com o partido X ou com o partido Y. Ele se lastreia na nossa História. Isto porque o Brasil não foi terra de colonos interessados em construir uma Nação. Foi terra explorada, saqueada até a última gota para servir a interesses além mar. Quem não vinha para arrancar nossa riqueza, vinha para ser castigado. Isso mesmo, aqui era terra de degredo. Passamos 500 anos exportando riquezas e aceitando bandidos e ainda hoje não conseguimos quebrar esse ciclo. A diferença é que hoje os bandidos estão no poder e a riqueza não vai mais para a Inglaterra ou Portugal e sim para algum lugar aconchegante na Suíça.  

A verdade é que o brasileiro tem o sério defeito de tolerar os próprios defeitos e isso é algo cultural, popularizado como o nosso famoso “jeitinho”. "Pouco importa se o país está imerso num mar de lama, eu não tenho parte nisso"! "A culpa é dos eleitores do partido X, eles que se virem para arrumar a casa"! O problema é que moramos na mesma casa e, embora alguns tenham a opção de se mudar para Miami, a maioria não tem para onde ir. Então, o que fazer? Perder energia acusando quem optou pelo voto ou lutar juntos para que algo seja realmente feito? Eu prefiro acreditar que a vida não se resume numa história de “coxinhas” ou “empadinhas”, gregos ou troianos. Cada um carrega sua parcela de responsabilidade pelo todo e ratear a culpa é o primeiro passo para discutir saídas. Se isso não for feito às pressas, precisaremos de umas mil Miamis para suportar o peso de um Brasil saqueado e insatisfeito. Quando penso nisso, me lembro da memorável frase: "Brasil, ame-o ou deixe-o"? E de imediato me vem a célebre resposta: "O último a sair, apague a luz". Resta saber até quando vamos nos contentar em viver de fuga e escuridão.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Trilhe seus próprios caminhos e deixe eu para mim*



Existem muitas coisas que eu gostaria de entender... algumas a minha fé me explicou, mas em outras eu continuo buscando lógica. Gostaria de entender, por exemplo, por que toda indireta começa com a famosa "tem gente que..." e por que as pessoas se importam com isso simplesmente porque a "carapuça" serve. A verdade é que existem muitas cabeças para a mesma carapuça e uma única ideia para muitos seguidores. O resultado disso é um mar de indiretas e infantilidades que, na falta de um alvo específico, atinge o maior número de pessoas possível. 

Esse comportamento se torna ainda mais comum quando o que está em jogo são ideologias e se a conversa é sobre política, sai de baixo! Essa é, sem dúvidas, a maior perdição dos fanáticos. Eles babam, rosnam, xingam, distribuem suas ameaças e conspirações a esmo torcendo para que algum interessado siga seus passos ou para que algum desavisado o questione e assim ele possa demonstrar seus conhecimentos em público. Sim, porque o fanático é, antes de tudo, extremamente vaidoso. Ele dedica boa parte do seu tempo em discussões intermináveis e adora uma plateia. Não queira discordar de um fanático, porque nunca se sabe até onde ele pode chegar para demonstrar sua superioridade quase divina.

Outro perfil muito comum, principalmente em ano de eleições, é o propagador. Ele se deslumbra pela ideia do fanático e passa essa ideia adiante como se fosse uma verdade absoluta. Afinal, ela é mesmo! O fanático não admite outra realidade que não seja a sua e o propagador, como bom e fiel escudeiro, também não. Quando essa rede de propagadores cresce, podemos dizer que há uma especie de delírio coletivo ou, em outros dizeres, uma classe de super humanos. Pessoas assim acreditam que foram iluminadas e que todas as outras estão presas numa nuvem de ignorância sem fim. Isso explica o modus operandi do fanático, que expõe suas ideias em tom impositivo, quase sempre acompanhadas de um adjetivo depreciativo para aqueles que discordam total ou parcialmente. Essa casta iluminada não pode ser questionada nem em parte que já se desfaz num rio de ofensas e provas "incontestáveis".  

Além do fanático e do propagador, existe o livre. O livre analisa e questiona, podendo mudar de ideia a todo momento, desde que tenha bons motivos para isso. Ele quer entender, quer conhecer as diversas opiniões ligadas ao mesmo fato ou ideia e nem sempre se posiciona. Por que ele deveria tomar um lado? O livre é, antes de tudo, um observador. Quando se pronuncia é para fazer perguntas e se as respostas não agradam, ele busca outras. Essa aparente independência é bastante explorada pelo fanático, que acaba tachando o livre da forma que lhe convém. Isso porque o fanático não aceita meio termo. Se você não concorda integralmente com ele, está contra ele. É isso mesmo, o fanático adora tomar o livre como inimigo, mesmo que o livre não tenha a menor vocação ou paciência para duelar em prol do ego de outrem. O destino disso é o desvario ou a indiferença, sendo esta última a primeira escolha do livre. 

Num mundo cercado de desigualdades, o livre se pergunta onde estaria a solução para cada problema. Como solucionar a fome na África, a seca no nordeste brasileiro, a biopirataria na Amazônia, a guerra no Oriente Médio... Para tudo ele quer uma resposta, mas não suporta argumentos prontos e acabados, que não admitem uma revisão. Afinal, tudo pode ser revisto e as pessoas estão destinadas a evoluir para estágios onde o bem estar coletivo seja prioridade. Sim, mas isso não significa que o livre tenha a alma comunista. Ele sabe que a sociedade não está pronta para tamanho passo, mas acredita que um dia as pessoas realmente se importarão mais umas com as outras, sem que esse sentimento de comunhão seja imposto por um Regime. Mas o fanático não enxerga dessa forma. Aliás, por estar aprisionado numa capsula de racionalidade, ele não tem muito tato com sentimentos. Tudo que extrapola a razão é um mal psíquico digno de cuidados médicos. Por isso, quando um livre e um fanático se encontram, não existe diálogo. O fanático acaba achando o livre alienado e o livre acaba achando o fanático um louco ou tirano (um pouco dos dois, talvez). 

Mas será que diante de tantas divergências é possível haver um equilíbrio? Bem, primeiro é necessário haver harmonia dentro de cada parte. O fanático deve rever suas verdades prontas e se questionar mais sobre sua postura com aqueles que lhe são contrários. O propagador deve investigar a fundo as ideias por trás das bandeiras, antes de se tornar um defensor ou combatente delas. E o livre, bem, deve continuar investigando, se questionando, se construindo, afinal ele é livre para isso.

Fato é que no mundo ha espaço para livres, fanáticos, propagadores, alienígenas e afins. Todos podem coexistir sem prejuízos para os demais. Qualquer ideia contrária beira a arbitrariedade, o autoritarismo, a repressão e isso, em nenhuma hipótese, é salutar para os envolvidos. Cada um traz em si o reflexo de suas próprias experiências e a forma com que as ideia são colocadas ao público revela muito mais sobre o caráter e a personalidade do que sobre o intelecto. Por isso, antes de distribuir uma verdade inabalável, é interessante e até apropriado pensar se essa verdade chegará como punhal ou como luz para quem a recebe.


*Frase de Francesco Petrarca disponível em: http://www.quemdisse.com.br/frase.asp?frase=16209