domingo, 15 de maio de 2011

Num planeta distante...


 E foi então que o Pequeno Príncipe desceu num planeta diferente. Era cheio de vida, cores e aromas. Pássaros voavam e cantavam melodias diversas, dando ares de paraíso àquele lugar mágico. Assim, quase em transe, absorvido pela forte energia que o envolvia, o garotinho saíu explorando com olhos atentos a cada movimento. De repente, eis que se depara com um passarinho:

Passarinho: _ Olá, menino! Que faz por aqui?
Príncipe: _ Procuro algo que ainda não conheço.
Passarinho: _ E como vai saber que encontrou, se não conhece?
Príncipe: _ Não sei, mas procuro. A graça da vida é isto.

E seguiu a passos curtos, mãozinhas para trás, olhos fixos no horizonte. Foram horas de caminhada até que o nosso herói avistou um campo aberto que tinha em seu centro um enorme milharal. Cansado e faminto, pensou em colher algumas espigas e, nesse intúito, se aproximou da plantação. Porém, qual não foi sua surpresa ao ser repreendido por uma voz que parecia vir do vento. Olhou para os lados, mas não via ninguém. Assustado, perguntou:

Príncipe: _ Quem está aí?

E a voz disse: _ Olhe para cima.

Ao levantar os olhinhos apreensivos, o Princepezinho fitou um espantalho que o observava indignado.

Príncipe: _Quem é você?
Espantalho: _ Eu sou o responsável pela plantação que você invadiu. E a propósito, quem é você?
Príncipe: _ Sou um viajante. Tenho um planeta tão bonito quanto o seu. Mas por ser pequeno, não tenho milharais lá. Sua plantação me chamou a atenção. É grande como os campos de trigo que conheci a algum tempo. Sempre que me lembro desses campos, lembro também do amigo que lá deixei.
Espantalho: _Eu não tenho amigos, por isso nunca sou abandonado.
Príncipe: _Mas quem tem amigos, mesmo que estejam longe, nunca está só. Eles se fazem presentes sempre que pensamos nos bons momentos vividos junto. Por quê você não tem amigos?
Espantalho: _ Porque todos que se aproximam de mim tentam me conquistar para levar algumas espigas de milho. E quando conseguem, vão embora. Por isso não acredito em amigos. As pessoas são ruins e oportunistas. Sempre esperam conseguir algo em troca e, quando conseguem, não voltam mais. Pode pegar as espigas que precisa. Sei que você tem fome. Mas quando terminar, volte por onde veio. Não quero mais vê-lo aqui.
Príncipe: _ Mas eu não quero só as espigas. Quero também uma boa conversa. Quero te conhecer para que possa te cativar. Assim, quando eu for, não levarei apenas um pouco do seu milho. Levarei um pouco de você e deixarei um pouco de mim. Aí sim, seremos amigos.
Espantalho: _Não quero. Não gosto de conversas. Vou direto ao assunto. Ofereço o que esperam de mim e depois me esqueço de tudo. Não gosto de lembranças. Elas me irritam quando não tem ninguém por perto. E além disso, se ninguém se importa comigo, também não preciso me importar com ninguém.
Príncipe:_ Ninguém é tão forte que possa viver sozinho. E nem tão esperto a ponto de se esconder por trás das próprias atitudes. Você acha que está protegido dizendo e fazendo aquilo que esperam, mas todos sabem de suas carências e por isso se aproximam. Você só demonstra fragilidade agindo assim. Acha que é esperto, mas é igual a todo mundo e tem as mesmas necessidades. Não posso ajudar se você não quiser, mas se deixar, posso fazer algo diferente. Não vou te enganar para levar seu milho. Se você achar que mereço, dê-me o quanto quiser. Não me importo com a quantidade, desde que a oferta seja sincera. Se não for assim, não quero. Meu corpo tem fome, mas pode esperar. O que não pode mais esperar é esse seu coração faminto de sentimentos. Esse tipo de fome a gente só sacia quando deixa de querer ser esperto e passa apenas a não querer ser sozinho. Por quê você gosta tanto da solidão?
Espantalho: _Não gosto. As vezes quero fugir, mas acabo me aquietando porque essa liberdade me permite agir como bem entender em relação a mim e aos outros. Não tenho nada que me prenda, mas as vezes não sei se isso é tão bom quanto era antes. O tempo passa tão rápido. Nem me lembro mais quando isso começou, só sei que estou aqui, rodeado de pássaros que não mais assusto e que sempre me visitam sem nunca me notar. Eles vem, comem e vão embora. E sabe, acho que prefiro assim. Não sei mais. Sei que gostei de você, e não gosto de gostar das pessoas. Isso é ruim.
Príncipe: Por que é ruim gostar?
Espantalho: _Porque se você me cativar, ficarei preso a você. E quando você for embora, não poderei ir também. É melhor ficar só, com o coração vazio, do que só, com o coração cheio. Assim sofrerei menos.
Príncipe: _ Um amigo me disse uma vez que somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos. E sabe, é nisso que acredito. Eu o cativei e fui embora, mas deixei boas lembranças e ele sabe que também levei outras tantas. Somos amigos, e o fato de não vê-lo, não quer dizer que ele não exista.
Espantalho: _Eu só acredito no que vejo, e não o verei mais. Por isso, não quero que me cative.
Príncipe: _ Também aprendi que só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.
Espantalho: _Tudo bem, você venceu. Pode me cativar, então.
Príncipe: _Não funciona assim. Você só vai saber se te cativei se sentir minha falta quando eu for.
Espantalho: _Isso é cruél! Se for assim não precisa. Já devia ter desconfiado, você é igual aos passarinhos. Pegue seu milho e volte, já disse!

E o Principe deu no Espantalho um abraço e se despediu dizendo:

_Não preciso do milho. Já tenho um amigo e dele só quero levar a boa conversa que tivemos. E espero que ele saiba: sempre somos notados, mas só aqueles que nos vêem com o coração nos reconhecem de verdade.

Assim, voltou-se para a estrada deixando para trás o Espantalho surpreso e enternecido. Agora eram amigos e nem a distância das estrelas mudaria isso.
Foram horas de caminhada até que novamente o nosso herói avistou o passarinho que o recebeu na chegada:

Passarinho: _E então, menino, achou o que procurava?
 Príncipe: _Sim, e agora posso ir para outras buscas.
Passarinho: _E como sabe que encontrou se nem sabia o que buscava!
Príncipe: _Sinto que encontrei e, quando a gente sente, é porque encontrou mesmo e pronto! Vocês grandes tem mania de dificultar as coisas. É tudo tão simples, como olhar pro céu a noite.
Passarinho: Você é um garoto estranho, mas tenho que admitir, isso que disse é verdade.

E os dois se despediram num sorriso mútuo. Mais tarde, de volta ao seu planeta, o Principezinho cuidava de sua Rosa e dizia a ela o que havia acontecido. Ela o ouvia atenta e nem imaginava que num planeta distante havia um Espantalho sorridente que via no amarelo do milho um significado a mais. Seu coração não tinha mais fome, e isso mudava tudo! E mesmo que aquele encontro nunca mais se repetisse, a estória continuaria diferente, mais colorida, cheia de aromas como aqueles campos mágicos que jamais seriam esquecidos.


Obs.: Os trechos marcados são originais da obra de Antoine de Saint-Exupéry (O Pequeno Príncipe). O restante do texto foi elaborado baseando-se na obra em questão. 

Dedico este texto ao meu amigo espantalho, para que saiba: todos nós temos um lugar no mundo.

2 comentários:

Camilla Rabelo disse...

Isa, eu sou completamente apaixonada por essa obra de Exupèry. Já ouvi muitas pessoas dizendo que é apenas um livrinho bobo e eu fico triste por tamanha falta de sensibiliidade. Só pessoas de alma aguçada, como eu sei que você tem, são capazes de absorver toda a magia presente nos ensinamentos desse pequeno principezinho.

Beijão!

Isa** disse...

Obrigada Mila! Adoooro suas visitas! Escrevi esse texto pra um amigo meu e peguei emprestado o personagem de Exupèry. Espero que ele não se importe...rsrsrs Amo essa obra! Ela marcou muito minha vida e me influencia até hj... =)

Obrigada pelo carinho de sempre, linda!!!

Bjão!!!! =***