sábado, 16 de janeiro de 2010

Desabafo informal...


Não quero mais ver jornais, sempre os mesmos jornais sensacionalistas que exploram as mazelas humanas. Não quero colaborar com esse frenesi de notícias pedantes, cheias de mortes e desespero. Se cada correspondente levantasse mais pedras em vez de câmeras e microfones, certamente teríamos melhores resultados. Mas não, isso não dá ibope! Que necessidade há em filmar corpos se decompondo ao ar livre, pessoas dormindo sobre jornais velhos e crianças órfãs, famintas e sem rumo? Certo, a princípio é preciso chocar para atraír a atenção de quem pode ajudar...mas e quando a ajuda está de pronto? Que necessidade há em persistir com a mesma exposição exagerada da desgraça alheia? 


O mundo olha para as vítimas do Haiti. O mundo chorou pelas vítimas de Angra! E o Brasil chorou quando uma certa ponte caíu arrastando consigo cerca de vinte pessoas no Rio Grande do Sul. São tragédias, fatalidades que a mídia explora como verdadeiras minas de ouro! Qual a função da notícia? Informar, comover, vender... Penso que esta última engloba as anteriores quando se trata de importância. É preciso informar, função básica. O "comover" entra em cena quando interesses humanitários estão em jogo. Mas nada tem peso se não puder ser vendido. O mundo mantém seus olhos na miséria desastrosa haitiana. Será que o mundo sabe como a Minustah está agindo? O mundo sabe como está sendo feita a distribuição de mantimentos? Ou será que imagina como age a minúscula polícia do Haiti? Acredito que não. Será que o mundo sabe o que será feito em seguida?

Com que estratégia pode-se recontruír um país que nunca foi estruturado, dono de bases frágeis e uma população castigada pela História e pela natureza? Cada repórter  "informando o mundo" leva consigo sua barraca e seus mantimentos. Eles gozam de proteção, posto que a população em desespero poderia atacá-los. Também gozam de proteção os poucos armazéns que guardam produtos de primeira necessidade. Mais uma vez, o particular prevalece sobre o público. O certo seria o contrário. Mas o certo muitas vezes é irrelevante. Tão irrelevante quanto os pobres soterrados sob seus barracos, já que a Minustah se ocupa primeiro dos estrangeiros desaparecidos na região. É uma vergonha! A imprensa mundial mostra muitas coisas tristes que nos fazem repensar valores. Também mostra as inúmeras doações que chegam do mundo inteiro. Ela só não mostra o que está sendo feito com esses donativos...assim como nunca mostrou o que foi feito com todos os recursos recebidos do mundo após cada tragédia anterior. Afinal, o terremoto do dia 12 de janeiro não é a primeira fatalidade que atinge o Haiti...e certamente não será a última. 

O mundo observa atento, mas não sabe que a população está removendo escombros com as mãos e se ajudando como pode, como sempre fez. O mundo não sabe que no centro de Porto Principe há mais ongs como a Cruz Vermelha do que a "suntuosa" ajuda internacional liderada pelos "capacetes azuis". Foi preciso que um grupo de brasileiros criasse um blog para informar o que a imprensa não vende. Pesquisadores da Unicamp, pessoas comuns entre os comuns. Pessoas que andam pela cidade, entre repórteres e soldados, vendo de perto como verdadeiramente está a população do Haiti. E a propósito, vai como sempre, sofrendo e se virando, reconstruíndo com as mãos o que a natureza pôs abaixo. Eles se refazem, com ou sem ajuda. Obviamente há cenas que precisam ser mostradas devido à sua gravidade. Mas também é preciso mostrar a força desse Haiti que resiste, contrário a tudo que se espera. A ajuda chega, mas ainda é mísera diante da dimensão dos fatos. Esse, no entanto, não é o maior problema. A questão é a quem essa ajuda serve primeiro e quais são as prioridades.

Enquanto as "forças internacionais" decidem sobre isso, os corpos continuam apodrecendo nas ruas. Mas apesar deles, o haitiano segue juntando os cacos, porque é assim que acontece...e acaba. Seja por fatalidade, pobreza ou "macumba", o pior ocorreu. Mas quem está lá sabe bem onde as lentes mantém seus focos. Tanto faz se a fé não vende tanto quanto deveria, pouco importa se as pessoas se aglomeram tentando reestabelecer a ordem. Pouco importa que elas façam isso praticamente sozinhas. Enquanto isso, o mundo manda mais comida, dinheiro e remédios. Resta saber para qual Haiti essa preciosa ajuda anda indo.

Fontes:

Um comentário:

Vinícius Aguiar disse...

Como sempre, genial! Essa ajuda que sempre vem, escondendo um assistencialismo barato e cruel, faz com que os haitianos que sofrem, sofrem e apenas sofrem, sejam ainda mais humilhados perante os olhos do mundo. Mais uma vez, como você bem descreveu no seu texto, os interesses financeiros sobressaíram-se ás reais necessidades de um povo já tão castigado... e o que nos resta a dizer? É uma pena que há quem venda tanta desgraça... espero que as cabeças pensantes da humanidade que gorvenarão o mundo nas próximas décadas possam entender que a vida humana vale muito mais que o dinheiro que cai em nosso bolso!

Parabéns Isa, beijos!